Muitos brasileiros não se recordam do Plano Brasil Novo, popularmente conhecido como Plano Collor. Um plano de estabilização monetária adotado pelo governo do então recém eleito presidente Fernando Collor de Melo no dia 16 de Março de 1990. O plano, anunciado pela equipe econômica composta pelos economistas Zélia Cardoso de Melo, Ibrahim Eris e Antônio Kandir, previa muitas medidas entre as quais figuravam a adoção do câmbio definido pelo mercado, um programa de desestatização (PND), um severo programa de ajuste fiscal, congelamento de preços e salários, a abertura do mercado para as importações e o congelamento das contas corrente, overnight e cadernetas de poupança com que superavam o valor de NCz$ 50.000,00 (cinqüenta mil cruzados novos). O novo plano criava uma nova moeda: o Cruzeiro. Foi um momento assustador pois o congelamento das contas nunca antes fora adotado.

Ilustração:corredor de supermercado.
Fonte: site gazetadopovo.com.br
O plano tinha por objetivo provocar um choque na economia de modo a frear a hiperinflação que chegou ao patamar de 82% ao mês. Também a dívida pública havia chegado ao correspondente à 100% do PIB.
O choque econômico levou a uma situação complicada em que a economia após queda da inflação com o choque, voltava a ceder a inércia inflacionária (como já havia ocorrido com o cruzado e o cruzado novo).
Esses dias difíceis ficaram para trás, mas ameaçam voltar.
Porém o atual momento, nesse cenário de estagflação, com direito a arrocho salarial, flexibilização trabalhista, desemprego, e aumento recorde no trabalho informal nos coloca em uma condição econômica tão difícil quanto no período do Plano Verão e Plano Collor. A diferença percebida pela população é que naquele tempo havia inércia inflacionária galopando à hiperinflação enquanto hoje temos o gargalo econômico da estagflação.
Os vários reajustes de energia elétrica e combustíveis, e a atual escalada do dólar provocou um enorme aumento do custo para a indústria e de serviços básicos ao consumidor. Isso é notado ao compararmos a evolução entre o IGP-DI e o IPCA. Os últimos índices de IPCA mostram bem a dificuldade em repassar o custo da produção ao consumidor. A indústria, os transportadores, e outros setores estão operando com margem muito pequena (quando não com prejuízo) para continuar operando. Não é atoa que os caminhoneiros entraram em greve essa semana, pois estão com a corda no pescoço.
A atual situação só se resolve com inflação porque não há mais espaço para a política monetária contracionista e aos primeiros sinais consistentes de retomada do crescimento econômico, a inflação terá uma alta significativa mas se houver equilíbrio na política econômica, a inflação se acomodará em níveis civilizados. Isso porque existe forte tendência de o setor privado recompor as perdas desses últimos meses.
Mas, neste momento, o que preocupa mais é a dívida pública brasileira que já alcança 84% do PIB e representa transferência de riqueza em moeda forte. Também o passivo externo líquido que se tornará em breve, grave ameaça a economia brasileira. A política monetária praticada por mais de 20 anos, com modelo tributário regressivo, altíssima taxa básica de juros e forte dependência de matérias primas em pagas em dólar (a exemplo do trigo que é matéria prima para vários produtos) colocam a economia em situação cada vez mais arriscada. Se nada for feito, veremos uma enorme crise.
Como a renda das classes mais pobres (que representa grande parte dos consumidores) não atinge o mínimo necessário ao custo de vida, muito preso ao subconsumo, também não oferece o trade off entre consumo e poupança. O que torna a política de juros para controle da inflação sem qualquer efeito, além de produzir superendividamento e encarecimento do crédito para as empresas. O crowding out resultante aprofunda ainda mais a contração da economia. O resultado é esse que vemos hoje: desemprego, endividamento, informalidade.
Existe solução. O último relatório da Oxfam apontou um caminho: É necessário recompensar o trabalho e não o rentismo e a riqueza. Se a política econômica adotada for capaz de reverter a brutal concentração de renda e o modelo de educação formar cidadãos mais empreendedores e inovadores e interessados em participar da democracia, poderemos construir os alicerces para um economia mais sólida e menos vulnerável.
Os trabalhadores serão os maiores beneficiados em uma economia que premia o trabalho em detrimento do rentismo.
Se é possível, devemos construir.




