Hoje eu vou falar sobre a minha preocupação com alguns detalhes que muita gente ignora a respeito da inflação no Brasil.
O IPCA de 0,09% em março/2018 pareceu animador para os entusiastas da política econômica do governo, mas não reflete completamente as condições da inflação. É apenas um dos sintomas da economia retraída e com sérias dificuldades em retomar o crescimento.
No Brasil, a inflação sofre grande influência principalmente dos preços dos combustíveis, custos envolvendo transporte e energia (sendo estes essenciais ao funcionamento da economia). O câmbio também exerce forte influência sobre os preços. São preços que afetam a indústria e o agronegócio, elevando os preços do produto final e reduzindo a competitividade a competitividade das empresas. Também o consumidor brasileiro sente os efeitos da inflação nos supermercados, nas contas de energia e no transporte público, além de outros custos.
Em outras palavras, a SELIC em patamar elevado, nunca combateu de fato a inflação. Apenas acelerou o endividamento, encareceu o custo de capital às empresas e favoreceu o rentismo. Também não reduz o consumo pelo encarecimento da oferta de crédito, pois o consumidor brasileiro, na maioria dos casos, faz a conta da capacidade de pagamento mas não do custo a prazo. Além de o consumo brasileiro se concentrar em produtos muito básicos (alimentos, transporte e energia), exatamente aqueles comentados ha pouco como fundamentais para a economia.
Trocando em miúdos: de nada adianta elevar a taxa básica de juros em um cenário onde estes custos permanecem elevados. A economia reduz o ritmo (em alguns casos, entra em recessão), mas diante de mínima retomada de crescimento, a inflação volta a subir, porque as causas da inflação não foram solucionadas.
Sendo assim, a retomada do crescimento no Brasil virá acompanhada, proporcionalmente ao aumento da inflação. Mesmo assim o governo persiste na atual agenda. Para nossa preocupação.
A reforma trabalhista, além de não solucionar o problema do desemprego, desprotegeu os trabalhadores. De nada adiantou porque a atual demanda não incentiva a produção aos níveis anteriores a recessão. Não obstante, a redução da atividade industrial tão reduzida (nível de produção tão baixo) a ponto de responder com alta de preços quando a demanda aumentar.
A reforma da previdência, proposta pelo governo, não aborda pontos fundamentais. A saber “2% dos beneficiários (somados) recebem quase ⅓ (um terço) da arrecadação total da previdência” e também a DRU (desvinculação de receitas da União) que morde 30% da arrecadação para qualquer área. Ninguém discute esses temas no escopo dessa reforma da previdência (que está no congresso). E quanto a DRU, é necessário fazer uma reforma tributária.
Enquanto isso, a dívida pública aumentando sem controle (segundo o FMI, chegará a 100% do PIB em 2023). Quem dentre nós se re lembra daquele fatídico dia 16 de março de 1990, imagina o que pode acontecer quando a dívida pública chegar a 100% do PIB.
Ou seja, combater a inflação com altas taxas de juros e promover redução na atividade econômica, provoca o que acontece hoje. Desemprego, informalidade e queda na arrecadação. Qualquer ataque especulativo ao real nesse momento, terá consequências graves a economia brasileira.
Só existe uma maneira de reverter a situação da economia brasileira. Uma reforma tributária que atinge o rentismo aliviando a carga sobre a indústria e a agricultura brasileira, que favorece o trabalho e não o rentismo. Também taxas de juros civilizadas, abaixo da rentabilidade das empresas no mercado futuro (atrair capital produtivo e não capital especulativo) dada necessidade de investimentos em ativos que geram empregos e desenvolvimento, em desfavor do investimento em riqueza pretérita (já acumulada). Não há desenvolvimento sustentável sem emprego, empreendedorismo e sem adequada distribuição de renda.
E o ponto mais polêmico. A auditoria da dívida pública. Mas isso é tema para um próximo post.
Enfim, a economia brasileira e o dilema da inflação têm solução. Com os remédios certos.




