Bem que eles tentaram, mas não aconteceu o que eles queriam

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Imagem de destaque: Revolta da Vacina

Em tempos de desinformação, fake news e pessoas tentando sabotar as medidas de isolamento social, inclusive com negação da veracidade da pandemia que assola o mundo levando a óbito elevado número de enfermos e levando países ao risco de colapso do sistema de saúde, é importante recordar que nesse momento, a forma mais eficiente de evitar o contágio dessa nova espécie de coronavírus é o isolamento social.

Entretanto o que percebemos é elevado número de pessoas que se prendem a teorias conspirativas sobre a pandemia que vão desde uma conspiração comunista imaginária até uma conspiração politica imaginária, promovendo manifestações contra o isolamento social e pela reabertura do comercio em geral, tendo como plano de fundo a negação da pandemia e a suposta conspiração comunista imaginária. Isso diante de uma pandemia que já levou a óbito 941 pessoas até o momento (segundo o que eu ouvi na rádio Antena 1 – São Paulo), notícia que tive confirmação no jornal Valor Econômico.

Mas não é a primeira vez que populações se voltam contra medidas de contenção de epidemias. Pouco mais de um seculo atrás, o Brasil viveu dias bastante turbulentos devido a promulgação de uma lei que obrigava a vacinação contra varíola e obras de saneamento lideradas pelo médico e sanitarista Dr Oswaldo Cruz. A chamada Revolta da Vacina, ocorrida em novembro de 1904 , no Rio de Janeiro, então capital dos Estados Unidos do Brasil (como era chamado na época o Brasil) , provocou o caos na capital federal com depredações e violentos confrontos entre populares e forças de segurança e resultando em um enorme numero de presos, além de deportados (para o Acre). Houve também uma tentativa de golpe de estado frustrada.

 


Imagem: Bonde depredado por populares revoltados (Fonte Wikipedia)

Mas a atual situação difere em muito a ocorrida na revolta da vacina, que teve como medidas na época de 1904, a proibição do cultivo de hortas e a criação de suínos, a remoção de famílias de edifícios considerados condenados, além da “invasão do lar com ofensa à honra do chefe de família ausente”, alegadas por populares que sentiam-se ultrajados pelas mulheres que precisavam se despir para a aplicação da vacina por pessoas estranhas.

No momento atual, o que temos no Brasil, possui apenas um paralelo com essa época que é a existência de uma doença grave que precisa de efetivo combate ao contágio e a completa ignorância de pessoas que não aceitam as medidas que visam conter o avanço da doença. As semelhanças param por aí, pois diferente daquele tempo em que a epidemia era de varíola, o que temos hoje é um vírus (2019-nCoV , causador da COVID-19) que se espalha silenciosamente entre pessoas que não apresentam nenhum sintoma da doença, o que pode levar simultaneamente grande número de infectados às unidades de saúde , provocando o colapso dos sistemas de saúde. Também diferente daquele tempo, hoje estão sendo tomadas políticas de auxilio as populações afetadas pelas medidas, como um programa de renda básica emergencial e a elaboração de mais propostas com a finalidade de evitar mais danos a população isolada nas residências devido as medidas de isolamento social adotadas pelos estados da federação.

 


Imagem: Manifestantes bolsonaristas, em São Paulo, protestando contra a quarentena (Fonte: Sputnik).

 

Também diferentemente das medidas contra a epidemia de varíola no ano de 1904, as medidas tomadas contra a pandemia de COVID-19 tem apoio da grande maioria da população, que ao contrário dos manifestantes negacionistas, tomou conhecimento da gravidade da pandemia e entende a necessidade das medidas restritivas tomadas até então. Em outras palavras, no atual cenário, não há condições para um nível de confusão como o que se generalizou no Rio de janeiro da época do presidente Rodrigues Alves.

Não é a intensão desse texto tratar sobre o dilema entre saúde e economia levantado pelos manifestantes que parecem preferir se expor ao vírus e negar a gravidade da pandemia, uma vez que o tema já foi tratado nesse mesmo blog.

Esse período de isolamento social tornou evidentes os enormes problemas de saneamento, abastecimento de água, moradias precárias, problemas na rede de saúde em muitos municípios, além da enorme desigualdade. Problemas estes que entra ano e sai ano são ignorados ou procrastinados, mas que em situações de crise de saúde com a atual, tornam se dramáticas e podem ser decisivas no combate a pandemia.


Imagem:  Ilustração dobre desigualdade – favela (Fonte: Folha de São Paulo)

Ainda é cedo para dizer como será o Brasil pós coronavírus, mas algumas coisas boas podem ocorrer se a sociedade se posicionar de maneira mais firme, como uma transformação nas políticas de habitação e saneamento básico, fortalecimento do SUS e melhor equipamento da rede pública de saúde, proteção e defesa do meio ambiente, novas políticas de mobilidade urbana, a valorização de empresas que tenham como prática políticas de inclusão, sustentabilidade (ambiental) , além de uma mudança de visão quanto ao mundo do trabalho.

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